Aluno de Itabirito consegue trabalho como produtor de games
Evento ligado ao Valin Arcade dá resultado em sua primeira edição e apresenta cenário até então desconhecido pela cidade

Itabirito é uma pequena cidade do interior de Minas, localizada a menos de 60 km da capital. E é seguro dizer que o assunto produção de games não seja muito comum entre seus pouco mais de 53 mil habitantes.
Ou pelo menos não era comum.
Em agosto de 2024, o Valin, em parceria com a Secretaria municipal de Desenvolvimento Econômico e o IFMG, levou para a cidade uma espécie de aquecimento para o Valin Arcade: a Arena Tech, um espaço para a criação, competição e experimentação de games e novas tecnologias.
Foi através de uma game jam proporcionada pela comunidade dentro do espaço da Arena Tech que surgiram os primeiros projetos de games da cidade… e também o primeiro trabalho profissional nessa área.
É aqui que entra o Lucas Rodrigues e seu Solarpunk 2077.
Lucas e o Solarpunk 2077
Lucas tem 19 anos, é itabiritense e aluno do terceiro semestre de Matemática Computacional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Apaixonado por animação desde pequeno, foi procurando saber mais sobre o mundo dos desenhos animados que ele acabou caindo nas tecnologias por trás destes tipos de filmes, que se conectam em alguns pontos com a produção de games.
No entanto, parecia que sua cidade, ultra dependente da mineração na economia, não daria espaço para esses outros tipos de conhecimentos e segmentos de trabalho. Até que o Valin chegou com a proposta da Arena Tech e uma temática específica para quem quisesse participar de uma game jam: solarpunk, a versão ecológica e menos sombria do cyberpunk.
Lucas se empolgou com a game jam, curtiu a temática e se inscreveu com a proposta de Solarpunk 2077, que vinha com a seguinte sinopse:
“Num futuro utópico, a humanidade alcançou um nível de desenvolvimento tecnológico sem precedentes, avançando de forma sustentável. Contudo, nem tudo é perfeito, e a natureza do universo é de constante transformação: o sol está prestes a entrar em colapso!
Ciente desse destino inevitável, a humanidade deu início ao Projeto Arca, que transferiu todos os seres humanos e animais para um novo planeta habitável. No entanto, para preservar a memória da Terra e documentar a evolução da civilização, foi lançada uma missão especial. Sua tarefa é coletar registros valiosos sobre a história do planeta. Essa missão foi confiada ao mais habilidoso astronauta de todos os tempos, Alfredo, acompanhado por seu fiel robô assistente, LuNe-SR5000. Juntos, eles embarcam em uma jornada de volta à Terra, que está à beira de ser consumida pela fúria do Sol.”
Inspiração nos clássicos (e nos indie)
Em Solarpunk 2077, Lucas trouxe referências (de roteiro, mecânica e visuais) de games que estavam em seu imaginário e que criaram sua bagagem cultural de games.
“Minecraft, Tetris, Super Chicken Jumper, Journey e Gris são jogos incríveis, bem diferentes entre si, e que me chamam a atenção por terem uma premissa inicial simples, porém constroem dessa base uma experiência complexa, e de forma magistral”.
A força das gincanas de programação
Ao longo de 3 dias de oficinas e contato com profissionais da área, Lucas e outros participantes da Arena Tech puderam não só aprender a tirar suas ideias do papel, como entender que, sim, seria possível viver da produção de games até mesmo em pequenas cidades do interior.
O que ajudaria a fazer com que este movimento não terminasse logo após o evento.
“Apesar de gostar de criar jogos, eu sempre tive um pé atrás sobre se eu realmente conseguiria entrar nesse mercado, eu enxergava que as “verdadeiras” oportunidades não estavam palpáveis a mim. Era uma visão limitada onde eu só conseguiria viver disso se entrasse em uma empresa grande de desenvolvimento, ou tentasse nadar no oceano incerto do desenvolvimento de jogos indie. Mas participar da game jam, principalmente das palestras, me abriu uma nova visão sobre esse mercado no Brasil, e até mesmo na minha região”.
Vencedor da competição, Lucas saiu da game jam não só com o primeiro lugar e um Nintendo Switch novinho em mãos, mas também, seu primeiro trabalho (bem) remunerado na área.
“Atualmente eu decidi de fato começar a desenvolver meus projetos comerciais, totalmente inspirado na experiência proporcionada na jam de poder ouvir e conversar com desenvolvedores já experientes e atuantes na área. Tive inclusive, a incrível oportunidade de começar na área logo depois da competição, recebendo a oportunidade de trabalhar com o Ronaldo Gazel [ integrante do Valin e um dos professores da Arena Tech ], que conheceu meu trabalho pela jam”
Sem essa de Inteligência Artificial
Por conta do tempo de realização da game jam, dentro da Arena Tech foi liberado utilizar Inteligência Artificial para a produção do design dos jogos. No entanto, mesmo com isso, Lucas resolveu fazer a mão cada personagem e cenário do seu game antes de escanear o design para o computador.
Além do roteiro e do apuro técnico na programação, esse caminho criativo chamou a atenção dos jurados, que viram o empenho do participante e um resultado bastante diferenciado no quesito artístico.
Talvez a sua curiosidade lá de trás, por saber como eram feitas animações, tenha gerado bons resultados aqui, alguns anos depois.
Nós, do Valin, acreditamos que é possível, sim, criar novos caminhos para a economia e para a cultura das cidades do interior de Minas. Principalmente aquelas, hoje, ainda dependentes da mineração, como é o caso de Itabirito.
O caso do Lucas e da Arena Tech, ação conectada com o Valin Arcade, é a prova disso e quem pode dizer mais a respeito é o próprio estudante, vencedor da gincana:
“A realização da game jam, para mim, foi a consolidação dessa visível mudança sobre a cidade, onde que, o movimento em se desenvolver para outras áreas fora a mineração, e que tenham foco em tecnologia e inovação, é real.
Acredito que com novas ações, e investimentos, Itabirito tem tudo para ser uma referência nessas áreas, assim como já é em outras. Conheço muitas pessoas muito talentosas quando o assunto envolve a cultura digital, mas assim como eu, se sentiam presas e limitadas na região. Entretanto, o impacto da mudança já é real, e acho que muito em breve poderemos ver grandes projetos vindos exatamente daqui”.

Participaram nessa ação do Valin os integrantes da comunidade: Ronaldo Gazel (professor na game jam), Alexandre Santana (jurado), Andrea Senna (planejamento) e Kelson Douglas (organizador e community leader).